piano patterns

by Marco Lucchi

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1.
Um dia, num restaurante, fora do espaço e do tempo, Serviram-me o amor como dobrada fria. Disse delicadamente ao missionário da cozinha Que a preferia quente, Que a dobrada (e era à moda do Porto) nunca se come fria. Impacientaram-se comigo. Nunca se pode ter razão, nem num restaurante. Não comi, não pedi outra coisa, paguei a conta, E vim passear para toda a rua. Quem sabe o que isto quer dizer? Eu não sei, e foi comigo … (Sei muito bem que na infância de toda a gente houve um jardim, Particular ou público, ou do vizinho. Sei muito bem que brincarmos era o dono dele. E que a tristeza é de hoje). Sei isso muitas vezes, Mas, se eu pedi amor, porque é que me trouxeram Dobrada à moda do Porto fria? Não é prato que se possa comer frio, Mas trouxeram-mo frio. Não me queixei, mas estava frio, Nunca se pode comer frio, mas veio frio. Fernando Pessoa
2.
Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada. À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo. Fernando Pessoa
3.
Ah, tudo é símbolo e analogia! O vento que passa, a noite que esfria, São outra cousa que a noite e o vento – Sombras de vida e de pensamento. Tudo o que vemos é outra cousa. A maré vasta, a maré ansiosa, É o eco de outra maré que está Onde é real o mundo que há. Tudo que temos é esquecimento. A noite fria, o passar do vento São sombras de mãos, cujos gestos são A ilusão madre desta ilusão. * Tudo transcende tudo. E é mais real e menor do que é. Fernando Pessoa
4.
A morte é a curva da estrada, Morrer é só não ser visto. Se escuto, eu te oiço a passada Existir como eu existo. A terra é feita de céu. A mentira não tem ninho. Nunca ninguém se perdeu. Tudo é verdade e caminho. Fernando Pessoa
5.
Do vale à montanha, Da montanha ao monte, Cavalo de sombra, Cavaleiro monge, Por casas, por prados, Por quinta e por fonte, Caminhais aliados. Do vale à montanha, Da montanha ao monte, Cavalo de sombra, Cavaleiro monge, Por penhascos pretos, Atrás e defronte, Caminhais secretos. Do vale à montanha, Da montanha ao monte, Cavalo de sombra, Cavaleiro monge, Por plainos desertos Sem ter horizontes, Caminhais libertos. Do vale à montanha, Da montanha ao monte, Cavalo de sombra, Cavaleiro monge, Por ínvios caminhos, Por rios sem ponte, Caminhais sozinhos. Do vale à montanha, Da montanha ao monte Cavalo de sombra, Cavaleiro monge, Por quanto é sem fim, Sem ninguém que o conte, Caminhais em mim. Fernando Pessoa
6.
A única maneira de teres sensações novas é construires-te uma alma nova. Baldado esforço o teu se queres sentir outras coisas sem sentires de outra maneira, e sentires-te de outra maneira sem mudares de alma. Porque as coisas são como nós as sentimos — há quanto tempo sabes tu isto sem o saberes? — e o único modo de haver coisas novas, de sentir coisas novas é haver novidade no senti-las. Mudar de alma. Como? Descobre-o tu. Desde que nascemos até que morremos mudamos de alma lentamente, como do corpo. Arranja meio de tornar rápida essa mudança, como com certas doenças, ou certas convalescenças, rapidamente o corpo se nos muda. Não descer nunca a fazer conferências para que não se julgue que temos opiniões, ou que descemos ao público para falar com ele. Se ele quiser que nos leia. De mais a mais o conferenciador semelha actor — criatura que o bom artista despreza, moço de esquina da Arte. Fernando Pessoa
7.
No soul more loving or tender than mine has ever existed, no soul so full of kindness, of pity, of all the things of tenderness and of love. Yet no soul is so lonely as mine — not lonely, be it noted, from exterior, but from interior circumstances. I mean this: together with my great tenderness and kindness an element of an entirely opposite kind entered into my character, an element of sadness, of self - centredness, of selfishness therefore, whose effect is two - fold: to warp and hinder the development and full internal play of those other qualities, and to hinder, by affecting the will depressingly, their full external play, their manifestation. I shall analyse this, one day I shall examine better, discriminate, the elements of my character, for my curiosity of all things, linked to my curiosity for myself and for my own character, leads to one attempt to understand my personality. * It was on account of these characteristics that I wrote, describing myself, in The Writers Day: One like Rousseau... A misanthropic lover of mankind. I have, as a matter of fact, many, too many affinities with Rousseau. In certain things our characters are identical. The warm, intense, inexpressible love of mankind, and the portion of selfishness balancing it — this is a fundamental characteristic of his character and, as well, of mine. Fernando Pessoa (original in english)
8.
Meu pensamento é um rio subterrâneo. Para que terras vai e donde vem? Não sei... Na noite em que o meu ser o tem Emerge dele um ruído subitâneo De origens no Mistério extraviadas De eu compreendê-las..., misteriosas fontes Habitando a distância de ermos montes Onde os momentos são a Deus chegados... De vez em quando luze em minha mágoa Como um farol num mar desconhecido Um movimento de correr, perdido Em mim, um pálido soluço de água... E eu relembro de tempos mais antigos Que a minha consciência da ilusão Águas divinas percorrendo o chão De verdores uníssonos e amigos, E a ideia de uma Pátria anterior À forma consciente do meu ser Dói‑me no que desejo, e vem bater Como uma onda de encontro à minha dor. Escuto‑o... Ao longe, no meu vago tacto Da minha alma, perdido som incerto, Como um eterno rio indescoberto, Mais que a ideia de rio certo e abstracto... E p'ra onde é que ele vai, que se extravia Do meu ouvi‑lo ? A que cavernas desce? Em que frios de Assombro é que arrefece? De que névoas soturnas se anuvia? Não sei... Eu perco‑o... E outra vez regressa A luz e a cor do mundo claro e actual, E na interior distância do meu Real Como se a alma acabasse, o rio cessa... Fernando Pessoa
9.
Stormi 07:09
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Um passeio 03:45
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Conversation 13:29
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Combinations 06:11
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Renewal 06:30
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Organ breath 03:31
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Six Emotions 21:38
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Swelling 02:53
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Sinister 03:41
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about

Marco Lucchi : piano, organ and tone generator

with

Walter Fini : synthesizers and electronics
Henrik Meierkord : cello, viola and double bass
Mean Flow : keyboards
Pete Swinton : synthesizers and electronics
Filippo Panichi : electronics
M.Nomized : synthesizers and electronics
Lorenzo Santoro : clarinet and electronics
Antonio de Braga : drums
GLSmyth : synthesizers
Susan Matthews : electronics
Agnostura Elwar : electric guitar, bass guitar and voice
itwasthewires : modular synthesizers
Vanessa Pettendorfer : organ
Sisto Palombella : accordion and 'whistle'
Rocco Saviano : electric guitar
Wilfried Hanrath : electronics
Liquid House : synthesizers

***

Soprattutto grazie alle cosiddette "Pagine esoteriche" mi sono riavvicinato al mondo poetico di Fernando Pessoa, mondo che ho comunque sempre amato. Nel frattempo, complice la consueta passione per gli arpeggi, quegli arpeggi "egoisti" che sembrano non avere bisogno di niente altro, ho ritrovato, se mai l'avessi perso, il gusto per le strutture minimaliste e ripetitive, per quei sentieri ipnotici che fin da subito mi hanno conquistato e che sempre poi mi hanno fatto compagnia. Ho pensato quindi di accostare ogni brano musicale a un testo di Pessoa, riconoscendogli in questo modo la statura di progenitore di quel Modernismo che mi ha nutrito, capace di percorrere i sentieri della Psiche e della Natura interiore. Come altre volte è successo, con mia immensa gioia, alcuni amici e colleghi mi hanno accompagnato e confortato in questa avventura, arricchendo e conferendo ulteriore spessore alla mia ricerca. A loro va il mio più sentito ringraziamento.

Mostly by the so-called "Esoteric Pages" I got closer to the poetic world of Fernando Pessoa, a world that I have always loved, anyway. In the meantime, due to the everlasting love for arpeggios, that sort of "selfish" arpeggios that don't seem to need anything else, I was moved once again by the feelings for minimalist and repetitive structures, for those hypnotic patterns that conquered me since the very beginning of my musical affair and then always walked with me. I therefore thought of combining each piece of music with a writing of Pessoa, finding in him the progenitor of that kind of Modernism that has nourished me, capable of following the paths of Psyche and of the inner Nature. As it often happened, to my immense joy, some friends and colleagues have accompanied and comforted me on this journey, enriching my research and giving further depth to it. My biggest and sincere thanks go to them.

credits

released November 6, 2020

music by Marco Lucchi

contributions and re-imaginings by
Walter Fini
walterfini.bandcamp.com
Henrik Meierkord
henrikmeierkord.bandcamp.com
Mean Flow
meanflow.bandcamp.com
Pete Swinton
soundcloud.com/peteswinton
Filippo Panichi
soundcloud.com/f-p
M.Nomized
mnomized.bandcamp.com
Lorenzo Santoro
lorenzosantoro.bandcamp.com/music
Antonio de Braga
soundcloud.com/antonio-de-braga
GLSmyth
glsmyth.bandcamp.com
No Mates Ensemble
nomatesensemble.bandcamp.com
Susan Matthews
susanmatthews.bandcamp.com
Agnostura Elwar
agnosturaelwar.bandcamp.com
itwasthewires
itwasthewires.bandcamp.com
Vanessa Pettendorfer
soundcloud.com/vanmagi
Sisto Palombella
sistopalombella.bandcamp.com
Rocco Saviano
roccosaviano.bandcamp.com
Wilfried Hanrath
wilfriedhanrath.bandcamp.com
Liquid House
liquidhouse.bandcamp.com

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Marco Lucchi Modena, Italy

a mellow artist aging 64. He loves and releases eclectic music that goes from post-classical to drone. His fav device is the mellotron.

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